quarta-feira, 20 de agosto de 2008

AO VOLANTE - II: PUMA GTE 1971

Mesmo sendo um entusiasta dos carros antigos nacionais, eu nunca havia dado muita bola para o Puma; muito da imagem um tanto negativa que o pequeno esportivo ainda tem em certos grupos de colecionadores se deve ao péssimo estado em que a maioria deles se encontra, quase invariavelmente mal restaurados, mal conservados ou, pior, totalmente descaracterizados. Eu sabia que esse não seria o caso quando, em 2005, o Ronaldo Fachin elegeu um Puma GTE 1971 para sua coleção que, no currículo, tem um Fusca 1950 premiado no Brazil Classics 2004. Quando vi o desafio que tinha pela frente, no entanto, fiquei desanimado: do carro original, sobraram apenas a carcaça, os bancos e o raro console central; parado por anos a fio no subúrbio do Rio de Janeiro, ele era cheio de remendos e quebra-galhos, mas tinha a virtude de ser o mais desejável dos Puma-VW, o último com as linhas originais de Anísio Campos, com a traseira curtinha e sinaleiras debaixo dos faróis, e o primeiro a ter freios a disco de série. Quase dois anos e muitas dores de cabeça depois, ele brilhava como novo na sua nova cor, um cinza-chumbo metálico muito próximo ao do Dodge Dart daquele ano, já que a Puma não tinha catálogo de cores próprias e o dono podia optar por qualquer uma disponível entre os fabricantes. A mecânica, também tinindo de nova, seguia a receita do Kit Puma da época, com pistões forjados, cilindrada aumentada para 1.7 litro, comando Engle e duas Weber 44 que levam o esportivo de pouco mais de 600 kg a uns 115 cv líquidos, uma ótima relação peso-potência. O charme ficou por conta dos filtros de ar da Italmagnésio autênticos de época, que parecem ter sido guardados para serem usados no Puma. Fui escalado para descer com o bichinho pela Rodovia dos Imigrantes para a sua estréia no encontro de Santos de 2007 - no qual, obviamen-te, ele foi premiado. O ambiente esportivo, a ótima posição de dirigir e os bancos envolventes já eram conhecidos de outros Pumas, mas é na estrada que ele surpreende quem espera pouco mais do que um Fusca com roupa de ginástica. Com exceção da posição dos pedais e do plec-plec-plec das batidas de válvula, ele em nada lembra o pacato carro de passeio do qual derivou e oferece ao motorista uma autêntica experiência de pilotar um puro-sangue: motor nervoso, subida de giros rapisíssima, um coice de potência acima das 3500 RPM, suspensão firme e estabilidade exemplar - a Puma é citada em vários livros internacionais sobre a VW como a empresa que conseguiu o melhor acerto de suspensão para modelos "a ar". A velocidade final do bólido? Bem, digamos que eu tenha ficado bem à margem da lei na Imigrantes, mas o Júlio, filho do Ronaldo, já me disse que deixou para trás um atônito Focus Ghia a mais de 200 km/h...
Sucesso de público e crítica no Brasil e no exterior, ele foi vítima da própria empresa que o criou, tendo sido descaracterizado e amansado com o tempo até se transformar em mais um fora-de-série nacional charmoso, feito mais para quem buscava um visual exclusivo do que para os amantes dos carros-esporte. Seus criadores - Jorge Lettry, Anísio Campos, Marinho, entre outros - foram deixando a Puma na medida que ela ia se desviando de sua proposta inicial até se transformar em uma empresa problemática e endividada que abriu falência em 1990 após várias mudanças de dono e tentativas de produzir até caminhões. Mas os anos de ouro da indústria brasileira estão muito bem preservados e documentados por este belo felino que, junto com com outros exemplares dos mais antigos, vem ganhando lugar em algumas das melhores coleções do Brasil e é saudado no exterior como um dos melhores e mais divertidos pocket-rockets já criados.

5 comentários:

Julio Fachin disse...

Realmente fica cada vez mais difícil nos depararmos com exemplares originais, ou pelo menos algo próximo disso, da Puma. Muitos dos carros da marca acabaram indo parar em mãos erradas e foram desaparecendo das ruas. Ainda mais tratando-se do primeiro modelo a ar, cuja carroceria era bem mais curta e estreita do que as das Pumas mais novas, e que surgiu em 1968 e foi até o ano de 1972. O interessante do modelo ao qual o artigo faz referência, o Puma GTE, lançado no segundo semestre de 1970, é que foi o primeiro Puma a sair com motor 1.600 de fábrica e freios a disco na dianteira. O charme desta carroceria fica por conta das linhas inspiradas no Lamborghini Miura (as linhas laterais são praticamente as mesmas) e as lanternas do DKW Fissore abaixo dos para-choques dianteiros. Os exemplares 70 e 71, este só até a primeira série, saiam com as rodas popularmente conhecidas como "tijolinho". As rodas deixaram de ser produzidas ainda no primeiro semestre de 1971 devido a um incêndio que destruiu o ferramental da Scorro utilizado para produzir as mesmas. Por terem sido montadas nos Pumas somente entre 1970 e 1971, e pelo fato de serem de magnésio, material altamente inflamável, as mesmas acabaram tornando-se item extremamente raro e procurado por colecionadores.
Meus parabéns pelo artigo.
Um abraço!
Julio

Chico Rulez! disse...

Sensacional!

O carro de idoso igual o meu que tomou bina era Zetec ou Duratec? Tendo andado naquela 1800 (que não deve estar tão brava quanto esta), fica tranquilo de acreditar. Anda demais!!!

Luís Augusto disse...

Carro de idoso só no imaginário dos moleques que andam de 1.0, porque o desempenho do Focus 2.0 é mais do que respeitável.
Um adversário e tanto para um esportivo de mais de 35 anos...

Chico Rulez! disse...

Eu concordo plenamente. Além do desempenho, o comportamento dinâmico ainda é espetacular. Só me responde uma coisinha: tirando eu, você já viu algum não-avô dirigindo Focus Ghia? Provavelmente não. Normalmente os donos de Focus Ghia são aqueles ex-donos de Versailles Ghia e de DelRey Ghia no passado...

Voltando ao Puma: Julião, que dia você vem nele pra BH? hehehehehe

Julio Fachin disse...

Grande Chico! Cara, vou com ele no dia em que tirarem os radares móveis hehehe. O velocímetro do Puma, até uns 120-130km/h dá umas ociladas. Ou seja, só marca com precisão acima dos 130km/h. Aí fica difícil pegar a estrada e dirigir dentro da lei heheh. Vem pra cá com o Luís pro Salão do Automóvel aí vc dá uma acelarada na bixa.
Abraços!
PS: Luisão, acabei de entrar no maxicar e vi o link lá. Parabéns!!!